Objetivo do Módulo de Formação-Ação
O II Módulo de Formação-Ação em Promoção da Saúde e Participação Social, realizado entre os dias 24 e 26 de novembro em Marabá, Pará, teve como objetivo principal a promoção do cuidado em saúde através da valorização e fortalecimento dos saberes tradicionais das mulheres nas comunidades. Através desse encontro, buscou-se também criar um espaço de reflexão e troca de experiências, onde as participantes pudessem identificar e debater a importância do território em suas práticas de cuidado.
Durante os três dias de atividades intensivas, as mulheres não apenas compartilharam suas vivências, mas também exploraram como suas histórias e identidades influenciam a maneira como entendem e lidam com a saúde e o cuidado no contexto em que vivem. Esse módulo foi uma oportunidade rica para dialogar sobre a saúde como um direito humano fundamental, enfatizando a necessidade de reconhecimento das particularidades de cada território, suas culturas e suas práticas de cuidado históricas.
O foco na promoção da saúde vai além de simplesmente tratar doenças; ele se concentra na construção de uma cultura de cuidado que engloba a prevenção, o acesso a serviços de saúde de qualidade e o empoderamento das comunidades. Este módulo foi essencial para que as mulheres refletissem sobre o papel ativo que desempenham na construção de uma sociedade mais justa e saudável.

Participação das Mulheres nas Atividades
A participação das mulheres durante o módulo foi ampla e engajada, com representantes de diferentes comunidades, aldeias e organizações presentes. Cada mulher trouxe um conjunto único de experiências e saberes que enriquecia o debate e possibilitava a aprendizagem coletiva. Esse aspecto é fundamental, pois a troca de experiências variadas é um dos pilares para a construção de um conhecimento mais abrangente e efetivo em saúde.
As atividades foram estruturadas de forma a permitir que as participantes se expressassem livremente, contribuindo com suas narrativas e conhecimentos sobre saúde e cuidado. A conversa foi pautada por questões que vão desde práticas tradicionais de cuidado até os desafios enfrentados por suas comunidades no acesso às políticas de saúde. Essa diversidade de vozes possibilitou um panorama mais rico sobre como as mulheres percebem a saúde em seus contextos específicos, algo que muitas vezes é negligenciado nas decisões e políticas públicas.
Além disso, a participação ativa das mulheres foi um fator crucial para reafirmar a sua importância nas esferas de decisão relacionada à saúde. Muitas delas saíram do encontro não apenas com novas amizades e parcerias, mas também com um senso renovado de propósito e responsabilidade em suas comunidades. Esse processo de empoderamento é vital para que mais mulheres assumam papéis de liderança na promoção da saúde local e na reivindicação de direitos.
Troca de Experiências e Aprendizagem Coletiva
A troca de experiências durante o II Módulo de Formação-Ação foi um aspecto central das atividades. Cada mulher pôde compartilhar não apenas suas histórias, mas também as práticas de cuidado que realizam em suas comunidades. Essas histórias são fundamentais para criar um ambiente de aprendizagem coletiva, onde experiências individuais se tornam um rico acervo de conhecimento coletivo.
Por exemplo, práticas de cura tradicionais, como o uso de ervas e chás, foram debatidas e valorizadas. Muitas mulheres relataram como essas práticas ainda são eficazes em seus tratamentos, ao mesmo tempo em que interagem com os cuidados oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa sinergia entre saberes tradicionais e modernos é um grande passo para a construção de uma saúde mais integrativa e respeitosa das culturas locais.
A metodologia utilizada durante o encontro incentivou que cada participante fosse ativa durante as discussões. Isso permitiu que as mulheres não apenas escutassem, mas também ocupassem espaço para ensinar e disseminar suas tradições e conhecimentos. Essa aprendizagem coletiva é essencial, pois momentos de diálogo como esses oferecem a oportunidade de se reconhecer e valorizar saberes muitas vezes invisibilizados.
A Importância do Território na Saúde
A saúde não pode ser dissociada do território onde se vive. Durante o módulo, emergiu com força a ideia de que entender o território implica respeitar e valorizar as relações sociais, culturais e históricas que se desenrolam nesse espaço. Território é mais que um espaço geográfico; é um contexto que envolve memórias, vivências e também as práticas de cuidado em saúde.
Maria José, uma das educandas do módulo, expressou essa conexão ao dizer que “território não é só a terra em si, mas também o nosso corpo, a nossa vida”. Essa afirmação ressalta que a saúde deve ser percebida de forma holística, considerando não só o acesso aos serviços de saúde, mas também como o contexto em que se vive influencia diretamente o bem-estar.
A relação entre território e saúde foi abordada com insistência, foi destacado que a valorização da cultura local e das práticas comunitárias são impreteríveis para o fortalecimento da saúde na região. A compreensão do território como um espaço de resistência e um local cujas dinâmicas afetam diretamente a saúde dos indivíduos e das comunidades foi um dos aprendizados mais significativos do encontro.
Desigualdades e Políticas Públicas de Saúde
O módulo também se propôs a discutir as desigualdades que afetam o acesso à saúde e a necessidade de políticas públicas que atendam às demandas locais. A educadora popular Gilvânia Ferreira trouxe à tona a discussão sobre como as desigualdades sociais e territoriais impactam o acesso a serviços de saúde.
Ela enfatizou que as políticas de saúde devem ser entendidas não apenas como um direito, mas também como um compromisso de todos nós enquanto sociedade. Segundo Gilvânia, “a política de saúde é um direito. A população que vive nos territórios precisa conhecer seus direitos para acessar o SUS e, assim, enfrentar desigualdades no cuidado”. Essa afirmação evidencia a necessidade de capacitação das comunidades para que possam se apropriar da informação e reivindicar o que lhes é de direito.
A desigualdade é uma barreira significativa que impede muitos indivíduos de acessarem os cuidados necessários. Portanto, a definição de políticas públicas deve levar em consideração as realidades locais e as especificidades de cada território, garantindo que todos tenham oportunidade de acesso a cuidados de saúde dignos e apropriados.
A Cultura e o Cuidado nos Territórios
A cultura desempenha um papel vital na forma como as comunidades percebem e vivenciam o cuidado. No contexto do módulo, foi amplamente discutido como os saberes tradicionais e as práticas culturais estão entrelaçados na promoção da saúde. As tradições, rituais e formas de cuidado coletivo que emergem das culturas locais se revelaram como instrumentos eficazes na construção de um ambiente de saúde.
Gilvânia Ferreira reforçou essa ideia ao afirmar que “a cultura permeia a vida, as ações e as manifestações simbólicas”. Afinal, o que se entende por saúde vai muito além da ausência de doença; trata-se de um estado de bem-estar que envolve aspectos físicos, emocionais e sociais. Portanto, reconhecer e respeitar as tradições culturais é primordial para qualquer intervenção em saúde.
O módulo possibilitou que as participantes discutissem como suas práticas culturais podem e devem coexistir com o cuidado profissional e institucional. Essa articulação é importante para romper com a lógica excluída que, muitas vezes, marginaliza saberes e práticas tradicionais. No cuidado à saúde, a integração dessas práticas e saberes pode promover um ambiente mais acolhedor e eficaz para o bem-estar das comunidades.
A Voz das Educadoras Populares
A presença e a fala das educadoras populares ao longo do encontro foram fundamentais para enriquecer as discussões. As educadoras, que atuam na linha de frente dos desafios da saúde, trouxeram suas experiências e sua sabedoria sobre o que funciona e o que não funciona nas políticas de saúde. Elas geraram reflexões acerca da importância de serem ouvidas em processos de decisão que impactam suas comunidades.
A voz das educadoras é uma ferramenta poderosa na luta por direitos e na promoção da saúde. Elas, que conhecem as especificidades e necessidades de suas comunidades, desempenham um papel crucial na construção de estratégias que sejam verdadeiramente efetivas e sensíveis às realidades locais. As educadoras não são apenas transmitidas de conhecimento; elas são mediadoras que conectam saberes populares à formação de políticas públicas.
Esse aspecto mostrou claramente que as educadoras têm um papel central na conscientização das comunidades sobre saúde e cuidados, encaminhando a luta por direitos e justiça social. A sua humanidade e compromisso ressoaram em cada canto do encontro, reafirmando a força do coletivo e a importância de se tornarem defensoras ativas na promoção da saúde.
Práticas Tradicionais e Inovações em Saúde
Um dos temas que mais se destacou durante o módulo foi a relação entre práticas tradicionais e inovações em saúde. Muitas mulheres relataram como práticas tradicionais de cuidado, como o uso de ervas medicinais, coexis\tiram em harmonia com tratamentos médicos modernos. Essas práticas frequentemente refletem um profundo conhecimento ancestral, transmitido ao longo de gerações, uma herança cultural que se revela extremamente valiosa para a saúde coletiva.
O desafio, porém, está em encontrar formas de integrar essas práticas com as inovações e tecnologias atuais. As participantes discutiram a importância de respeitar e reconhecer os saberes locais, ao mesmo tempo em que se busca apoio de práticas científicas que possam complementar e fortalecer as abordagens tradicionais. Essa integração é essencial para que as comunidades possam maximizar o potencial de cuidado em saúde.
Entre as inovações discutidas, mencionou-se a utilização de tecnologias digitais no mapeamento de saberes locais e na disseminação de informações. A utilização de aplicativos e plataformas de comunicação pode proporcionar uma troca de saberes ainda mais ampla, permitindo que as vozes das mulheres ecoem mais longe e com mais força. As inovações estão destinadas a servir como aliadas no fortalecimento das práticas de cuidado que já existem nas comunidades.
O Papel da Comunidade na Promoção da Saúde
A culminância de todas as discussões do II Módulo de Formação-Ação mostra claramente que a promoção da saúde é um esforço coletivo, que depende da organização e da ação conjunta das comunidades. As mulheres participantes reconheceram que, ao fortalecer a própria comunidade, estão também promovendo a saúde de cada indivíduo dentro dela.
A organização comunitária é um catalisador para a mudança social, e as mulheres desempenham um papel central nesse processo. Elas têm a capacidade de mobilizar suas comunidades para reivindicar direitos, acessar serviços de saúde e promover práticas de cuidado que respeitem as tradições locais. O sentimento de pertencimento e responsabilidade compartilhada, reforçado pela fala de Tipepew Suruí, da etnia aikewara, foi um elemento de união para todas as participantes.
Esse espírito comunitário é fundamental para que se possa enfrentar desafios que vão desde o acesso às políticas de saúde até a luta por igualdade de direitos. A força coletiva das mulheres é um dos recursos mais valiosos na luta pela saúde e bem-estar, demonstrando que a união e a solidariedade podem levar a grandes transformações sociais.
Desafios e Perspectivas Futuras no Cuidado
Os desafios discutidos ao longo do módulo foram variados, mas todos convergiram para a necessidade de estratégias que promovam uma saúde mais integrada, equitativa e respeitosa com as especificidades de cada território. Um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres é a resistência de instituições em reconhecer e integrar saberes tradicionais nas políticas de saúde. Este é um ponto que exige um esforço constante de mobilização e advocacy.
Além disso, a desinformação e a falta de acesso a informações sobre os direitos de saúde são barreiras significativas que precisam ser superadas. As mulheres reconheceram que a educação e a conscientização são ferramentas poderosas na busca por melhoria da saúde coletiva. O futuro do cuidado está diretamente ligado à capacidade de cada mulher em se apropriar de informações e usá-las para empoderar suas comunidades.
Perspectivas futuras sugerem que a continuidade de módulos de formação, como o promovido em Marabá, deve ser uma prática constante. Esses encontros promovem a formação contínua, a troca de experiências e a construção de redes de apoio entre as mulheres. Quando fortalecidas, elas não apenas se tornam mais capazes de lidar com os desafios atuais, mas também preparam o terreno para as futuras gerações.
O Projeto Territórios de Cuidado exemplifica um caminho promissor para o fortalecimento das raízes culturais e da autonomia das mulheres, propiciando um ambiente onde é possível discutir abertamente sobre saúde e direitos. Este é apenas o começo de uma jornada que poderá levar a transformações significativas nas comunidades, com um impacto duradouro no cuidado e na promoção da saúde.


